quarta-feira, 23 de abril de 2014

Frutose faz mal?



Frutose faz mal? Por Eduardo Corassa, escritor, palestrante e formando em nutrição.

 

 

Frutose, vista como o açúcar das frutas devido a ser um monossacarídeo (açúcar simples), presente também nas frutas, é o novo vilão do momento. A ingestão de frutose tem sido ligada ao aumento da obesidade, síndromes metabólicas, fígado gordo (esteatose hepática) diabetes e dislipidemia e até mesmo o câncer 1, 2. O que levou a ela a ser amplamente debatida, considerada como tóxica e recomendada por muitos profissionais a se reduzir seu consumo ao máximo. Devido a ela naturalmente ocorrer em praticamente todo alimento que tenha carboidrato e ser mais abundante nas frutas do que nos vegetais, ao ter o prefixo frut, as inocentes frutas, que também carregam esse açúcar simples acabaram sendo vistas como culpadas e hoje em dia muitos alegam que não comem frutas, devido a serem ricas em frutose. Sempre me perguntam, como sabem que minha dieta é predominada em termos de calorias por frutas, mas não é frutose em excesso? Ela não faz mal?

Geralmente, vegetais vão de 0.1 a 1.5 gramas de frutose a cada 100 gramas de alimento. Enquanto as frutas vão de 0.5 (o limão ou o abacate) até 9 gramas, uvas sendo um exemplo alto com 7.6 gramas a cada 100 gramas de fruta, o que é apenas 7.6% do seu peso. Ou seja, frutas giram em média de 5% a 9% apenas do seu peso composto de frutose.

E a questão principal é a quantidade de frutose em 100 gramas de fruta ou vegetal cru, fresco e integral, é infinitamente menor que a quantidade de frutose em qualquer alimento industrializado e açucarado. Como podemos ver na tabela de análise, comparando a banana, com 2.7 gramas de frutose e o xarope de milho, composto de 55% de frutose, sendo 55 gramas 3 a cada 100 ml. Portanto, você precisaria consumir quase 21 bananas, para obter quantidades similares a que você encontra no xarope de milho que adoça tudo hoje em dia, desde biscoitos até bebidas isotônicas, cereais matinais, barras de cereais, iogurte etc. 

E existe uma imensa diferença ao comparar a frutose industrializada, ou seja, a frutose refinada, que é extremamente mais concentrada do que a frutose encontrada nas frutas, e desbalanceada, sem os poderosos micros e fitonutrientes, antioxidantes, sem proteína, gordura, sendo quase que puro açúcar, sem água, fibra, etc. que acompanham todo o pacote nutricional no qual os alimentos vegetais do qual ela foi refinada continham. Esta frutose industrial vem geralmente do famoso HFCS-55 (Xarope de milho rico em frutose). E, devido a todos estes micro e macronutrientes, a fruta obviamente é metabolizada de forma diferente em nosso organismo do que a frutose isolada (adoçante), o açúcar refinado ou o HFCS.  

E, praticamente toda a frutose ingerida na atualidade não vem das frutas, mas sim dos refrigerantes, bolos, balas, o qual sem as fibras e os respectivos fitonutrientes contidos nas frutas, causam a absorção dos açúcares ser extremamente rápida causando picos glicêmicos. E por estes alimentos industrializados geralmente serem ricos nas gorduras saturadas ou vegetais que são adicionadas a seu preparo industrial, causam a hiperglicemia, ao levarem o fenômeno denominado LIMC (Lipídio Intramio Celular), que impede a metabolização da glicose, que fica presa na corrente sanguínea.

Sabemos que o consumo de frutas pelos brasileiros e através do mundo é baixíssimo, não alcançando nem a recomendação da OMS (Organização Mundial de Saúde) de 400 gramas por dia (4 bananas médias ou 2 maças grandes). Segundo dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2008-2009, menos de 10% da população em geral atinge as recomendações de consumo de FLV, preconizadas pelo Ministério de Saúde 4.

Então como a frutose das frutas, que é praticamente não consumida por ninguém, e as frutas são vistas como o alimento mai s saudável e nutritivo a seres humanos, pode ser a causa de tantas DCD (Doenças crônicas degenerativas) 5,6,7 ? Então como se a própria OMS prova e alega em diversos relatórios que FLV (Frutas, Vegetais e legumes) tem um papel crucial na manutenção da saúde, peso e na prevenção contra inúmeras DCD, frutas poderiam ser de repente o vilão? E, já que sabemos por registros antropológicos das arcadas dentárias de nossos ancestrais, que seres humanos viveram a base de frutas por aproximadamente 50 milhões de anos, e a frutose obviamente não os tornou obesos ou propensos a doenças, de modo a serem fortes e saudáveis para sobreviverem na natureza 8.

O grande problema na nutrição em geral, é o excesso. O consumo excessivo de uma substância causa desgaste ao organismo que precisa trabalhar demasiadamente para digerir, absorver e assimilar aquele excesso, excretar dejetos metabólicos e corrigir os problemas bioquímicos induzidos por ele. O excesso de açúcares é transformado em gordura que acumula em sua corrente sanguínea e órgãos. Entretanto, com frutas, que são ricas em água, fibra, baixíssimas em calorias e tem o índice e a carga glicêmica baixa à moderada (para quase todas as frutas, tirando a melancia que tem o IG de 72, mas a CG de 4, o que é bem baixo) é praticamente impossível consumi-las em demasia. Agora o açúcar refinado e concentrado (50% frutose) e o HFCS, que são produzidos apenas pela refinação que joga fora estes componentes essenciais para a devida absorção, assimilação e utilização dos açúcares, leva seu GI (Índice Glicêmico) de 62 a 73 9, enquanto bananas, uma fruta bem doce e calórica, tem 52.

A frutose das frutas, ai já é completamente diferente e não podemos misturá-las, na mesma categoria. A metabolização de um alimento natural, rico em milhares de nutrientes conhecidos e muitos ainda desconhecidos e suas interações complexas. E, de acordo com as evidências médicas científicas de diversos estudos, elas não são e não devem ser fontes de preocupação e, na verdade, incluídas na alimentação saudável. De acordo com pesquisadores: “As legislações da Saúde Pública para eliminar ou limitar a frutose da dieta devem ser consideradas prematuras. Ao invés disso, esforços deveriam ser feitos para promover um estilo de vida saudável que inclui atividade física e alimentos nutritivos enquanto se evita consumir calorias em excesso até evidências sólidas que apoiem a ação contra a frutose estejam disponíveis” 10. E a conclusão de outro estudo famoso, publicado no The Journal of Nutrition é: “A frutose que naturalmente ocorre em frutas e vegetais fornece apenas modestas quantidades de frutose dietética e não devem causar preocupação” 11.

Frutas não são ricas em frutose, como o senso comum acredita. Se você tem medo de consumir frutose em excesso, deveria estar realmente preocupado com qualquer coisa que leva açúcar refinado e o HFCS e até mesmo o mel, que como mostra a tabela, é também tão rico em frutose, como o HFCS, esse açúcar industrializado do milho, que foi desenvolvido nos EUA, por ser a forma mais barata e eficiente de se obter açúcar e malignamente adoçar todo o tipo de comida doce e salgada com ele, fazendo com que nossos paladares acreditem que este é um alimento nutritivo, quando na verdade é apenas junk-food, calorias vazias, que agradam nossos receptores palativos e o cérebro mas destroem o organismo. Praticamente todo “alimento” nos Estados Unidos, e agora em grande parte do mundo, é adoçado com este composto, ainda mais que depois da década de 60, devido a sua ampla produção e subsídio do governo americano, a sucrose, que era a principal forma de adoçante, perdeu uma boa parte do seu posto para o HFCS.

 E, de forma errônea e absurda, muitos pesquisadores e profissionais na área da saúde, assim como o público leigo em geral, não diferenciam a óbvia diferença entre os açúcares saudáveis encontrados nas frutas, vegetais e outros alimentos veganos integrais, da frutose em sua forma industrializada e concentrada. Os estudos que causaram todo esse furor que frutose é tóxica foram feitos com frutose pura ou HFCS, que não é nem de longe similar a consumir a fruta pura, integral, in natura ou qualquer outro alimento vegano que encontramos na natureza. Sabemos que a sinergia dos nutrientes, a verdadeira sinfonia que a natureza cria na química de seus alimentos, é essencial para o funcionamento do organismo animal, tal designação que inclui o ser humano. Então isolar um nutriente em laboratório, dos milhares de outros que existem e vem juntos, ou comparar a frutose removida industrialmente do milho e concentrada em um xarope, é no mínimo absurdo e enganador, para o público leigo que não passa seu dia estudando nutrição, mas precisa urgentemente, de educação no assunto.

Portanto, por mais contraintuitivo que isso possa soar, devido a fruta e frutose serem nomes similares, se você quer reduzir o consumo de frutose drasticamente, corte todos seus pães, bolos, refrigerantes, balas, Milk-shakes, chocolates e qualquer tipo de alimento que contenha açúcar refinado ou adoçante. Para fazer isso de uma forma efetiva sem sofrer de desejos enlouquecedores por doces, você precisará aumentar drasticamente seu consumo de frutas. Assim, você não só consumirá uma frutose saudável, mas em concentrações muito menores das que vem dessas abominações dietéticas geradas por seres humanos modernos.

Agora deixando toda a ciência e lógica de lado, eu e milhares de pessoas através do mundo que sofriam de inúmeros, incontáveis problemas de saúde crônicos, recuperaram suas saúde e vivem sem sintomas de suas prévias doenças após adotarem uma dieta frugívora higienista rica em frutas. Eu particularmente era pelo menos pré-diabético, obeso, sedentário a ponto de fazer duas cirurgias e com uma pletora de outras enfermidades e por caso não sabia o que era consumir nem uma fruta ou vegetal por dia. E após 7 anos e meio comendo pelo menos 2 quilos de frutas ao dia e entre um a dois quilos de vegetais crus, frescos e integrais, relato estar na melhor fase da minha vida, com meus exames todos em dia, e nunca me senti melhor, apesar de toda a “frutose”consumida diariamente. Ter medo da frutose das frutas enquanto se consome tudo industrializado e açucarado com frutose não natural, é tão absurdo quanto frequentar o McDonalds para comer saladas. Peço que veja meus vídeos no youtube de exercícios e minhas fotos de antes e depois de uma dieta baseada em frutas e tire suas próprias conclusões.

Em prol de sua Saúde.

Gramas de açúcar a cada 100 gramas de fruta 13, 14.
Frutas
Glicose
Frutose
Uvas
6.5
7.6
Damasco
1.6
0.2
Banana
4.2
2.7
Cerejas
8.1
6.2
Abacate
0.5
0.2
Figos
3.7
2.8
Goiaba
1.2
1.9
HFCS
30.8
42.4
Mel
33.8
42.4
Jaca
1.4
1.4
Coca cola
44.8
61

Referências bibliográficas

1- John P. BantleDietary Fructose and Metabolic Syndrome and Diabetes

Dietary Fructose and Metabolic Syndrome and Diabetes

Dietary Fructose and Metabolic Syndrome and Diabetes” J Nutr. Jun 2009; 139(6): 1263S–1268S.

Dietary Fructose and Metabolic Syndrome and Diabetes1–3

2 - Tappy L et al. ““Fructose and metabolic diseases: new findings, new questions”.  Nutrition. 2010 Nov-Dec;26(11-12):1044-9.

3 – Nutritiondata. Disponível em: Nutritiondata.com

4 – Pesquisa de orçamentos familiares 2008-2009 - Antropometria e estado nutricional de crianças, adolescentes e adultos no Brasil. Ministério da Sáude. IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Rio de Janeiro, 2010.
5 - World Health Organization. Diet, nutrition and the prevention of chronic diseases. Report of a
Joint WHO/FAO Expert Consultation. WHO Technical Report Series No. 916. Geneva; 2003.
6 - World Cancer Research Fund / American Institute for Cancer Research. Food, Nutrition, Physical
Activity, and the Prevention of Cancer: a Global Perspective. Washington DC: AICR; 2007.
7 - World Health Organization. The world health report 2002 - Reducing Risks, Promoting Healthy
Life. 2002

8 - Dr. Alan Walker of Johns Hopkins University of Maryland. May 15, 1979, The New York Times.


9 – Suzanne Robin. What Is the Glycemic Index of Fructose Corn Syrup?Apr 25, 2011. Disponível em: www.livestrong.com/article/428383-what-is-the-glycemic-index-of-fructose-corn-syrup/

11- John P. BantleDietary Fructose and Metabolic Syndrome and Diabetes

Dietary Fructose and Metabolic Syndrome and Diabetes

Dietary Fructose and Metabolic Syndrome and Diabetes” J Nutr. Jun 2009; 139(6): 1263S–1268S.

12 - John P. BantleDietary Fructose and Metabolic Syndrome and Diabetes

Dietary Fructose and Metabolic Syndrome and Diabetes

Dietary Fructose and Metabolic Syndrome and Diabetes” J Nutr. Jun 2009; 139(6): 1263S–1268S.

13 - FRUITS AND SUGARS SUGAR CONTENT OF FRUIT.  Disponível em: http://thepaleodiet.com/fruits-and-sugars/

14 – Nutritiondata. Disponível em: Nutritiondata.com
Madero M et al “The effect of two energy-restricted diets, a low-fructose diet versus a moderate natural fructose diet, on weight loss and metabolic syndrome parameters: a randomized controlled trial.”Metabolism 2011 Nov;60(11):1551-9.