quinta-feira, 8 de março de 2018

Agrotóxicos - Devemos parar de comer frutas e vegetais crus? Bioacumulação e magnificação na cadeia trófica


Pessoas me perguntam sobre os agrotóxicos nas frutas e vegetais com medo, entretanto, comem carne, queijo, leite e ovos e comida cozida não orgânica. Vivem se expondo a toxinas ambientais através de comida industrializada, cosméticos, produtos de limpeza, produtos industrializados, vivendo em cidades grandes com queima de combustível fóssil, bebendo, fumando e tendo vários outros maus hábitos. Soa um tanto quanto absurdo, mas vamos lá, dar a opinião de um nutricionista que passou mais de uma década lendo artigos médicos científicos e vivendo primariamente de frutas e vegetais crus, em uma dieta crua, vegana, frugívora.

Primeiro devo enfatizar, sou completamente contra o consumo de agrotóxicos e devemos lembra-los que eles só são tão comuns e tão frequentes nos alimentos, devido a agropecuária querer lucrar em cima da monocultura, que assim engorda o gado e assim fornece carne, queijo, leite e ovos em quantidades abundantes a população ocidental que não só morre por tal hábito nefasto, que é consumir pedaços de animais mortos, secreções mamárias de um ruminante, menstruação de galinha não fertilizada, vômito de abelha e secreções mamárias de outro mamífero com a água removida e “estragada” por dias ou meses. Adoramos usar eufemismos e chamar de picanha, carninha, leitinho, ovos de galinhas felizes saudáveis, “queijinho”, mel e bla bla bla, sem usar as palavras reais do que estamos consumindo, apenas, por serem queimados e temperados, ou seja, mascarados na linguagem, no sabor e aparência.

Voltando aos agrotóxicos, não devemos nunca acreditar que pesticidas, rodenticidas, inseticidas, herbicidas, fungicidas são naturais ou benéficos a saúde de qualquer coisa, seja da planta, do animal, do ser humano ou do meio ambiente. A dioxina, um dos compostos tóxicos nos agrotóxicos e também contida em todo tipo de substância industrializada que usamos, como plástico, PVC etc. é comprovadamente neurotóxica, cancerígena, mutagênica, reprotóxica, teratogênica, obesogênica e imunotóxica. É um absurdo, viver em um mundo aonde o lucro do agronegócio e visado acima de toda a vida na terra e o futuro das próximas gerações.

Porque sinceramente, eu tenho uma enorme plantação em casa, e mesmo sem cuidar do solo e dela, só jogando as sementes dos quilos e quilos de frutas e vegetais que como diariamente, as plantas crescem e crescem demasiadamente, fornecendo muita comida de volta, sem a necessidade alguma de agrotóxicos. A necessidade vem porque fazendeiros querem plantar monoculturas, e só mesmo esterilizando o solo com estas toxinas, em prol de plantar só um tipo de alimento no local. Caso contrário, a natureza rejeita, matando as plantas através de pragas. Se na minha casa, que não e um terreno fértil, e não sou agricultor cuidando do plantio, os alimentos crescem muito, para que contaminar tudo que vive, solo, agua, ar, animais, plantas e ser humano com esses venenos que nem sabemos os efeitos epigenéticos que as próximas gerações irão sofrer.

De acordo com o CDC “Center for Disease Control and Prevention”, subprodutos do DDT ainda são encontrado no sangue de americanos, mesmo tendo sido banido na década de 1980 nos EUA. Um estudo brasileiro recente descreve maior prevalência de má formação genitais como micro pênis, criptoarquia e hipospadias em bebês masculinos do interior da Paraíba, aos quais seus pais, mães e eles tiveram exposição pré e perinatal ao DDT (agrotóxico banido nos EUA desde a década de 80) e outros QDEs (Químicos disruptores endócrinos), por trabalharem em plantações que utilizam agrotóxicos. Sugerindo ser a contaminação fetal um fator de risco para malformações da genitália externa masculina, em especial para a ocorrência de micro pênis.  A exposição aos QDEs foi associada a atraso puberal, níveis subnormais de produção de testosterona, falta de receptores andrógenos, redução do volume testicular e do comprimento do pênis em meninos.




Bom, poderia apresentar dezenas de milhares de dados contra os agrotóxicos, mas vamos a parte prática, que as pessoas realmente ficam demasiadamente confusas, por verem relatos no jornal da contaminação do morango ou pimentão, sem entender que de acordo com as pesquisas, 93% da contaminação de toxinas ambientais (incluindo agrotóxicos) por um americano, vem de carne, queijo leite e ovos. Sim! Não vem do ar, não vem do solo, da água e nem da comida vegetal, mas dos produtos de origem animal.






Arnold Schecter et. al., Journal of Toxicology and Environmental Health, Part A, 63:1–18

Legenda: TEQ = Toxicidade Equivalente.



EPA Dioxin Reassessment Summary 4/94 - Vol. 1, p. 37







Schecter A, Cramer P, Boggess K; et al. (2001). "Intake of dioxins and related compounds from food in the U.S. population". J. Toxicol. Environ. Health Part A 63 (1): 1–18.

Porque isso acontece? Os animais na atualidade consomem ração, produzida de soja e outros grãos cheios de agrotóxicos, ainda são injetados com hormônios sintéticos e antibióticos, levando a uma bioacumulação de todos os tipos de POPs (Poluentes Orgânicos Persistentes). E caso você os consuma, biomagnificará essas toxinas.

Mas não devo temer alimentos crus e comer os cozidos? Ai eu me pergunto, desde quando o público come apenas alimentos cozidos orgânicos? O feijão, arroz, abóbora, farinha de trigo e tudo que as pessoas comem cozido, foi também, em quase todos os casos, pulverizado com estes venenos. E o cozimento NÃO REMOVE agrotóxicos, apenas lembrando, pois parece que as pessoas esquecem.

O cozimento não remove toxinas, mas apenas adiciona compostos tóxicos, causa perda de nutrientes e ainda consumimos alimentos que nunca entrariam no organismo humano, incapazes de serem devidamente processados até mesmo em seu estado in natura, imagina após queimados por 2 até 2 horas. As substâncias tóxicas nos agrotóxicos são lipofílicas e hidro fóbicas, assim se grudam facilmente as células de gordura do animal mas não tão facilmente aos alimentos vegetais frescos. Poderia passar falando inúmeros detalhes em relação da importância do consumo de frutas e vegetais e da falácia que é evitá-los, mas ainda comer comida cozida onívora. Portanto, Corte o consumo de produtos de origem animal.

Cientistas já há 2 décadas, desenvolveram o conceito do “fígado verde”, pois o metabolismo dos xenobióticos nas plantas é similar a um fígado animal, sugerindo que plantas são uma importante “pia global”, uma forma de filtrar e eliminar toxinas ambientais e metais pesados. Este processo acabou sendo chamado de fitorremediação, a “tecnologia” de colocar plantas em locais contaminados, para elas literalmente “limparem” a contaminação, reduzindo a toxicidade e “sequestrando” eles do meio ambiente. Não temos noção da importância de termos plantas em casa e de comer plantas, a vista de cada nova descoberta científica mostra a volta aos primórdios, uma dieta fresca, vegana, crua, integral e outros fatores de estilo de vida a óbvia solução para nossa crise mundial de saúde, ambiental e ética.

E essas toxinas, através do processo de biomagnificação, que é o aumento da concentração diária pela exposição e o aumento a cada subida na cadeia alimentar, se tornam cada vez mais concentradas e, portanto, mais nocivas. Elas bioacumulam (acumulam em seres vivos) e bio-magnifícam, aumentando sua quantidade a cada vez que um animal, se expõe a elas, seja pelo ar, água ou comendo seu alimento ou outro animal contaminado."

Poderia dar inúmeros mais conceitos, dados científicos e detalhes sobre a questão, mas sabe a principal mensagem? Coma suas frutas e vegetais, mesmo que convencionais, elas possuíam importantes nutrientes benéficos e protetores do seu organismo.

Então quer voltar a só ter alimentos orgânicos no mundo? Poder comer comida sem veneno de grandes industrias farmacêuticas, que produzem essas substâncias só para o lucro do cartel da alimentação animalizada? Para de comprar alimentos de origem animal e até mesmo alimentos vindo de monoculturas, como os grãos, ou seus produtos industrializados como o leite de soja por exemplo. Na verdade, você ao comprar produtos industrializados oriundos dos grãos ou até mesmo os grãos da monocultura, você auxilia o fazendeiro a escoar os restos da produção em nós veganos, que visamos proteger os animais mas não entendemos que alimentos veganos na atualidade, podem não ser tão veganos assim dentro do sistema capitalista sórdido.

É engraçado que hoje em dia temos que dar um nome especial para alimentos sem veneno. Durante toda a história só existiu, alimento. Agora precisa ter diferenciação de convencional para orgânico e o alimento sem veneno, é muito mais caro e mais raro. A que ponto nós chegamos.
Sugiro assistir um vídeo de alguns anos atrás que fiz, que leva um pouco da mensagem:


https://www.youtube.com/watch?v=r6X5WP93S2g


Referências bibliográficas





Vallack, H.W., Bakker, D.J., Brandt, I., Broström-Ludén, E., Brouwer, A., Bull, K.R., Gough, C., Guardans, R., Holoubek, I., Jansson, B., Koch, R., Kuylenstierna, J., Lecloux, A., Mackay, D., McCutcheon, P., Mocarelli, P., Taalman, R.D.F. (1998). Controlling persistent organic pollutants – what next? Environmental Toxicology and Pharmacology 6, 143–175.

Arnold Schecter et. al., Journal of Toxicology and Environmental Health, Part A, 63:1–18

Eduardo Corassa; "O veganismo para mães, pais e bebês". Saúde Frugal, 2018 (A ser publicado)